Sobre 2006…
… nem sei que diga. Não encontro a palavra certa para o definir. Como se define um ano marcado por acontecimentos antagónicos. Nada houve de trivial. Todas as vivências, boas e más, foram profundamente marcantes, extraordinárias. Um ano de extremos. Se se pudesse aplicar os princípios matemáticos poder-se-ia dizer que as alegrias, altamente positivas, anulavam as tristezas, de valor igualmente negativo, e dava-se o ano por regular. Mas, felizmente, a matemática não se aplica aos sentimentos senão corria-se o risco de uma existência árida e estéril de emoções.
Este foi então o ano em que a pessoa que mais me atormentava desde que nasci decidiu subtrair-se da minha vida. Acontecimento inesperado, e seria deveras positivo não tivesse isso sido feito da forma mais cruel, com a tentativa de arruinar a vida de algumas das pessoas que mais amo e prezo. Mas, como a união faz a força, a tentativa não passou disso mesmo e tudo se recompõe.
Tive também a oportunidade de fazer um amigo, daqueles mesmo a sério. Aproveito aqui a oportunidade para lhe agradecer a paciência para me ouvir e apoiar nalguns dos dias mais negros e angustiantes da minha vida. E estou a preparar-me para ser tia pela primeira vez. Não há nada que nos estimule mais a esperança por dias melhores que a perspectiva do nascimento de um novo ser.
Não queria acabar esta reflexão sem reconhecer a importância da amizade com que todos, família e amigos, me presenteiam (sim, porque é um presente que devemos agradecer todos os dias), e especialmente do homem que ao longo destes últimos anos me regenerou com muita paciência, amor e compreensão, e com quem espero continuar a partilhar a minha vida.
Prefiro, então, pensar que foi um ano positivo mas… que não se repita. Não gosto lá muito de montanhas russas
Quem nunca se sentiu…
… sucumbir sob o peso, às vezes tremendo, dos acontecimentos ou das acções dos outros? E quem pode criticar? Quem nunca o fez ou pode garantir que não o fará?
Deixar-se abandonar, ceder, pode ser, talvez, a única forma de recuperar a força vital que parece esvair-se a cada momento que passa. Como se a realidade fosse um buraco negro que suga toda a energia.
No entanto a vida continua, o coração ainda bate, o corpo ainda funciona e a mente, essa, clama por mais: entendimento, justificações, resoluções, decisões. Clama pela vivência e o conhecimento de todo o mundo vasto que se estende mais além. Todas as pessoas e todas as experiências que ainda são possíveis e merecem ser vividas com todo o conhecimento, feliz ou infeliz, que foi generosamente oferecido pelo que se vive, pelo que os outros dão ou querem tirar.
Controlar a adversidade ou, por outro lado, deixar a adversidade controlar define a disponibilidade, ou não, de receber o que o mundo e a vida ainda estão dispostos a dar.
Como são patetas as pessoas…
… quando decidem que o melhor remédio para a desilusão é a solidão.
Parece-me natural que a primeira reacção ao sermos magoados e desiludidos por alguém em quem confiámos, a quem demos tanto de nós seja agarrarmo-nos ao velho e, até, sábio ditado popular: mais vale só que mal acompanhado. E por isso dizemos, com muita ligeireza: Não! Nunca Mais!!! Impregnamos esse sentimento dentro de nós, não queremos mais confiar ( é mais seguro e confortável?!) e depois tudo o que fica é… solidão.
Permitam-me então dizer o que penso: a solidão não tem piada nenhuma. Distancia-nos dos outros. Isola-nos. Aprendemos a sentir-nos bem em não partilharmos o que somos, em não confiar nuns e noutros até que não sobra mais ninguém na nossa intimidade a não sermos nós próprios.
Se nos isolamos há momentos que nos escapam. Os maus, o que parece óptimo, e os bons, os fantásticos. Será que vale a pena perder uns para não passar pelos outros???
Digam então que sou louca quando digo que confiar é bom. É bom não sentirmos medo de dizer o que pensamos, de demonstrar quem somos. E melhor ainda é voltarmos a sentir que podemos confiar de novo e aproveitar corajosamente esse resuscitar de algo dentro de nós que parecia moribundo.


