Meninas e Bonecas
“Fada Minha” é o local onde qualquer menina sente vontade de passar todos os seus dias. É uma loja de paredes altas cheias de prateleiras onde estão expostas bonecas de todos os tipos: grandes, pequenas, assim-assim, de porcelana, plástico, borracha, pano, vestidas com toda a espécie de tecidos mais elaborados ou mais simples. É uma explosão de cores que dão alegria às suas faces que olham terna e inocentemente para todas as suas futuras companheiras de brincadeira. O espaço em si também dá vontade de levar para casa ou então ficar ali para sempre. Toda a loja é revestida a madeira, por todo o lado encontram-se confortáveis cadeiras, grandes e pequenas, onde se sentam ansiosamente as meninas, que esperam a sua vez para fazer a difícil escolha da sua boneca, e as suas mães. Como por magia, ouve-se uma música de fundo que provoca, de forma inconsciente, sentimentos de uma infância feliz a todos os que aí se encontram. Para completar este ambiente acolhedor e familiar encontra-se o dono desta loja, a sua companheira de uma vida e os seus filhos.
O Sr. Artur é um homem prestes a atingir a terceira idade, de estatura mediana mas imponente, de farta cabeleira branca e uma expressão terna e afável no rosto. Considera-se um homem feliz. A D. Bia, como é carinhosamente conhecida, uma mulher baixinha, roliça e maternal, é a sua companheira de trinta e tantos anos e a primeira responsável pela sua felicidade. É-lhe grato pelo amor, companheirismo e pelos seus preciosos quatro filhos. De facto, o Sr. Artur considerava Bárbara, Mafalda, Edgar e Gabriel as suas obras-primas, em co-autoria, claro.
Tinha grande orgulho em todos os seus filhos mas Edgar dava-lhe especial preocupação. Notava que o seu filho se sentia triste e deslocado. Todos os outros tinham-se integrado bem e de vontade própria neste ofício de vender sonhos e felicidade a crianças. Mas com Edgar não era assim. O Sr. Artur não se importaria que o seu filho não seguisse o negócio de família, desde que estivesse feliz. Mas o rapaz ainda não encontrara o seu rumo. Encontrava-se ali apenas porque não tinha outro sítio onde estar.
Edgar sabia que o pai andava preocupado. O seu desconforto com a situação piorava ao ver aquele homem que admirava tanto, e que o tratava com tanto carinho e desvelo, preocupado e triste. O pai tentava esconder os seus sentimentos esperando pacientemente que tudo se resolva sem pressões, mas Edgar conhecia-o demasiado bem para se deixar enganar.
Num dia em nada diferente de todos os outros, Edgar ficou encarregue de fechar a loja. Sozinho naquele espaço de sonho, tratou de se certificar que todas as bonecas estavam nos seus lugares, que repunha outras nos espaços que tinham ficado vazios, que tudo estava limpo, arrumado e pronto a receber as novas pequenas clientes no dia seguinte. Sentiu-se cansado e decidiu sentar-se por uns momentos numa das confortáveis cadeiras destinadas aos adultos que acompanham as meninas que os visitam diariamente.
Estava quase a adormecer quando ouve um “pssst, pssst” muito baixinho. Sobressaltado vira-se e vê a seu lado uma menina pequenina de grandes olhos azuis e um cabelo cor de fogo avivado por uns lindos caracóis que lhe caíam sobre os ombros.
- Olá! – diz aquela vozinha doce que o acordara.
- Olá?! – responde Edgar, ainda perplexo, sem saber que mais dizer, e a olhar em todas as direcções a tentar perceber de onde teria aparecido aquela menina.
- Sentes-te bem? – pergunta-lhe ela.
- Sinto, mas… quem és tu? Porque estás aqui? – a confusão na cabeça de Edgar é imensa mas há-de haver uma explicação.
A menina senta-se numa cadeirinha que se encontra ali perto e diz:
- Chamo-me Sara e gosto de estar aqui. É muito bonito e simpático. E tu deves ser o Edgar.
- Como sabes quem sou?
- Vejo-te todos os dias. E andas triste. Porquê?
- Porque… espera! Como assim? Vês-me todos os dias? Não me lembro de te ver por aqui.
- É… as pessoas nem sempre reparam em mim. Outras sim e essas são muito simpáticas. Gosto muito de viver aqui.
- Cada vez entendo menos. Nunca viveu aqui ninguém! Não é possível. – Edgar nem sabe o que dizer, o que pensar. Pensa em todas as possibilidades de explicar o facto de aquela menina ali viver mas nenhuma lhe parece sequer plausível.
Sara continua:
- Eu sempre aqui vivi. Esta casa é que já não parece a mesma. No início, quando vivia aqui com a minha mãe, era tudo muito mais simples. Tínhamos uma mesinha, três banquinhos, além onde está o balcão, ficava a cozinha com um pequeno fogãozinho. Ali ao fundo – apontou para a zona mais afastada da porta – ficavam duas camas, muito simples, separadas por uma cortina. A minha mãe dizia que assim não havia sequer uma parede que nos afastasse uma da outra. A bem da verdade, quando fazia muito frio ou estávamos mais tristes, aqueles dias que não correm muito bem, sabes, nem a cortina nos separava.
“ Todos os dias ia para a escola. A minha mãe queria que eu aprendesse a ler. Assim, um dia, poderia ler-lhe as histórias bonitas que os livros contam e poderíamos sonhar juntas. Quando chegava a casa já uma refeição deliciosa estava na mesa. Nunca era muito, mas era delicioso. Depois de lhe contar tudo o que tinha aprendido ia brincar com a minha melhor amiga, a Aurora.” – e mostrou-lhe uma boneca de trapo muito velhinha e gasta. Os cabelos eram feitos de pedaços de lã e a cara era bordada, à excepção dos olhos que eram dois botões, num tecido já encardido com o tempo e o uso.
- Essa é a tua melhor amiga? Uma boneca? E até tem nome! – diz Edgar, incrédulo.
- Qual é o problema? É feia? Não gostas do nome? – É uma boneca. Um objecto. Um ser inanimado. Todos os dias entram aqui dezenas de meninas que olham fascinadas para estas bonecas como se tivessem poderes mágicos. Mas são apenas bonecas.
- Com um pouco de imaginação podem ser o que quisermos. – diz Sara como se fosse um segredo – Podem ter toda uma vida inventada por nós e aceitam a nossa tal e qual ela é. A nossa vida pode ser rica, pobre, interessante ou não, mais alegre ou mais triste, não importa. Acompanham-nos sempre com aquele sorriso e olhar que têm sempre uma expressão meiga. Aceitam sempre as nossas conversas e brincadeiras, estão sempre prontas a ouvir-nos e a acompanhar-nos. E se nos concentrarmos um pouco mais, respondem-nos e dão-nos conselhos e consolo.
“Aurora pode não ser muito bonita mas existe nela uma grande dose de carinho. Foi feita pela minha mãe que coseu cada pedacinho de tecido com muito esmero, colocou cada fio de cabelo com todo o cuidado, desenhou e bordou o sorriso mais doce e, por fim, deu-lhe dois grandes olhos azuis, como os meus, mas os dela nunca fecham. Disse-me que assim é como se Aurora estivesse sempre a olhar por mim. É como se me tivesse dado uma irmã. E, se a tratar bem, ficará comigo para sempre.”
“Aurora brinca sempre comigo quando estou alegre, ouve-me sempre quando estou triste e faz-me companhia quando estou doente ou sozinha. É muito meiguinha, fofinha e macia. Quando precisamos, uma boneca nunca é apenas uma boneca.”
- Está bem. Já percebi porque gostas tanto da tua boneca, mas as meninas que aqui vêm levam uma boneca que não foi feita pelas suas mães. Não me parece que se possa esperar o mesmo destas bonecas, pois não? – Edgar recusa-se a dar tanta importância ao que lhe parece ser apenas pedaços de porcelana, borracha, plástico ou pano que se encontram cuidadosamente arrumados naquelas prateleiras.
De repente, parece que Edgar tem razão. De facto, não há razão para que uma boneca fabricada por alguém que não conhecemos tenha o mesmo valor, ou magia, que uma feita por alguém que está ligado a nós por laços de afecto tão fortes.
Depois de pensar um pouco enquanto reparava que todas aquelas bonecas tinham um sorriso e um olhar tão meigos e compreensivos como os de Aurora, Sara responde:
- Bem, se calhar também foram feitas pela mãe de alguém. – suspira profundamente, olha de novo para Aurora e continua – Tenho muitas saudades da minha.
Sentindo, de repente, grande pena de Sara, Edgar pergunta-lhe:
- Onde está a tua mãe? – instintivamente olha em volta como se esperasse que ela pudesse aparecer a cada momento.
- Não sei. Um dia fiquei doente. Passava os meus dias na cama. Como não podia levantar-me nem brincar, a minha mãe deitou a Aurora ao meu lado para me fazer companhia. Um dia adormeci com a minha mãe de um lado a dar-me muitos miminhos e a chorar muito baixinho – coitadinha, devia estar preocupada com alguma coisa – , e a Aurora do outro, encostada ao meu peito. Quando voltei a acordar, estava aqui…
Nesta altura, Edgar sente uma luz muito forte bater-lhe nos olhos. Deixou de conseguir ver. Sentiu alguém a abaná-lo suavemente e a chamar pelo seu nome.
Confuso, abriu os olhos e viu à sua frente a sua mãe. Abraçou-a e deixou correr uma lágrima. Quando se afastam ela limpa-lhe a lágrima e pergunta:
- Que estás aqui a fazer, filho? Está tudo bem?
Não lhe sai da cabeça aquela menina que o tinha visitado num sonho tão extraordinário e as frases: “…uma boneca nunca é apenas uma boneca…” e “… também foram feitas pela mãe de alguém…”.
Olha em volta e sorri:
- Adormeci aqui. Está tudo bem. Agora está tudo bem.
♥havila♥ said,
June 3, 2009 at 1:04 pm
eu amúh bonecas….